Submissão (análise da Europa à luz de um romance)

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“[…]Eu estava cada vez mais marcado pelo pensamento de Toynbee, aquela sua ideia de que as civilizações não morrem assassinadas, mas se suicidam.” Disse François, protagonista do romance “Submissão” de Michel Houellebecq

Embora tais palavras não sejam pronunciadas no início da história, elas funcionam como um resumo do sentimento que tanto permeia a vida intima do personagem (um professor universitário aos moldes modernistas) quanto delineia-se na coletividade francesa através de relações frouxas, comidas instantâneas e sexo ocasional, culminando nos questionamentos existenciais tão próprios de nosso tempo e, portanto, também permitindo que tome conta de nós a mesma falta de sentido que por décadas encontrou ninho no coração do homem europeu, o qual desde dentro de sua própria consciência foi apartado da suas raízes, tradições e ritos pela força de ideias e ações que jamais compreendeu.

A mente de François e o microcosmos em que habita são o espelho da própria França moderna, o país arquitetado na revolução de 1789 e que continuou desde então arrastando-se num declive acentuada por séculos. É a França de Voltaire, Diderot, Sartre e Foucault, é a cultura louca e sem sentido de Duchamp, da boate Bataclan e do Charlie Hebdo, é a nação do pós-guerra que perdeu sua juventude nos campos de batalha e que como resposta mata seus bebês, abortando-os num materialismo sem falhas.

“{…}Pode-se dizer que [o patriotismo francês] nasceu em Valmy em 1792 e morreu nas trincheiras de Verdun em 1917” observou Houellebecq através de seu personagem, em um de seus questionamentos profundos transcorridos no intervalo entre transas, vinhos, rodadas de sushi e noites mal-dormidas.

O fim da França que conhecíamos, o que já não é mais uma tragédia anunciada e sim corrente, é a prova prática e trágica de como a laicidade-ateísta (regra intelectual no pais há mais 200 anos) não é de modo algum base para uma civilização, mas antes é a própria definição de destruição do que á erigiu (a tradição cristã) em nome de um imenso Nada, e por sua vez, sendo o vácuo intrinsecamente um convite a qualquer coisa que o ocupe, este movimento sugou pra si aqueles que por séculos foram rechaçados pela cristandade do continente, o Islã.

Esta outra face do destino moderno francês, que não começa com as imigrações de 2016, mas sim com as palestra de René Guénon 100 anos antes, também é exposta como um pano-de-fundo no decorrer da historia, primeiro em paralelo a todo o niilismo moderno e eventualmente culminando em intersecções cada vez mais pertinentes, surgindo diminuto e conseguindo pouco a pouco seu espaço seja no mundo exterior ou interior de François. Aliás, não seria spoiler citar aqui o fim deste livro, pois é em sua transformação e não em seu termino que reside o seu valor. ”Submissão” não foi feito para nos falar sobre a batalha entre civilizações e seu possível desfecho, nem trata de um longo lamento pelo apagamento de alguma tradição cultural, mas fala sim sobre a calma e gradual entrega do mundo moderno através de homem francês subjugado diante de suas paixões, de sua abstinência moral, do desapego a “sua” historia e, portanto – apesar de todos os seus questionamentos sinceros, e talvez justamente pela inabilidade em responde-los – a sua passiva e conveniente entrada para um novo mundo que não construiu e nem escolheu, mas que simplesmente nada fez para evitar.

Deixe-me lhe presentear com mais essas 2 citações do livro, tao claras numa era tao cinzenta:

“Pode ser impossível para as pessoas que viveram e prosperaram sob um determinado sistema social imaginar o ponto de vista daqueles que sentem que isso não lhes oferece nada e que podem contemplar sua destruição sem nenhum desânimo particular.”

“O passado é sempre lindo. Então, nesse caso, é o futuro. Somente o presente dói, e o carregamos como um abscesso de sofrimento, nossa compaixão entre dois infinitos de felicidade e paz. ”

 

06/11/2019

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