Judas Cassius Morus, ou o eterno retorno a traição milenar

JULIUS CAESAR
Aquele Cássio ali tem uns olhos magros e famintos, ele pensa demais, homens assim sao perigosos […] ele raramente sorri, e quando sorri é de modo como se zombasse de si mesmo e desprezasse sua alma por chegar neste mundo onde alguma coisa sorri, homens assim nunca descansam o coração enquanto virem alguém maior do que eles, por tanto eles são muito perigosos…”

– Julius Caesar, na peça homônima de William Shakespeare.

  Alguns homens são dotados de personalidade tal, que introspectivos e aturdidos em seus próprios pensamentos e maquinações, esquecem-se em razão da arrogância – mal que tão comumente acomete aos homens inteligentes com coração duro – de medir as condições para a recepção do desvelamento de seus planos e atos aos olhos do povo.

  Julgam, estes “homens honrados”, inebriados por sua própria esperteza, que todos dar-lhes-ão ouvidos como se o povo fosse uma alcateia de lobos, que uma vez convencidos dos ferimentos mortais de seu líder, dariam a estes as costas sem olhar para trás. Convence-se diante do espelho, que uma vez que ore no alto da tribuna, expressando em belos colóquios o porquê de ter tomado tão drásticas atitudes, a plateia o escutará e encherá os olhos de lagrimas, comovida ao escutar sobre o amor que esta tão límpida alma nutria pelo homem que precisou sacrificar em nome de sua entrega por toda a nação. De fato, este “homem honrado”como Cassius e Brutus, pertence a tal espécie que não se furta a bradar que fez o que fez. “por um bem maior” e emenda “jamais pensei em mim enquanto o fazia”, para então entrar nos méritos defeituosos do sacrificado, que, no entanto, ele tanto amou, ao menos durante alguns capítulos de sua biografia. Mas em algum momento, no alto de suas vaidades o homem circunspecto trai-se expressando veladamente as verdades de seu coração, dizendo haver entre os céus e a terra, coisas mais importantes que vã lealdades, ou ainda, num arroubo de virtude literária, que devemos “fazer as coisas certas, de modo certo e pelos motivos certos”, assim deixa escapar de esguelha o pouco que faz do suposto laço entre ele e a vítima, o qual tanto esforço fez para cristalizar em nosso imaginário. Mas tais “homens honrados” traem-se acima de tudo não pelos pequenos atos, e sim pelos questionamentos sobre o próprio passado, pois desta forma é obrigado a desdizer o que houvera dito sobre o bem que seu líder fizera, tratando-o agora como o portador de todas as chagas, o pior que já nos guiou a nação.

Então, desde o amontoado de explosões emocionais eis que surge a primeira pergunta:

“Por que não antes, ou depois, mas somente agora fizeste o que fizeste, justo quando as dificuldades mais se empilham sobre nós?”

Ao qual ele responde, “por que queria dar-lhe chances de redimir-se, mas não podia conceder-lhe tantas mais”.

Para então ser mais uma vez inquirido, desta vez de modo incisivo:

  “Não deveriam dizer, os amigos ao largarem os grandes projetos que tinham em comunhão aos seus, algo como ‘irmão deixo-te, mas desejo-te o melhor’, ou ainda olhando em seus olhos, ‘sacrifico-te por que te amo, mas amo ainda mais a este império’?”… Pois bem, o que dizer então destes que o fazem de esgueira, e que nas sombras com punhais desferem golpes com intenções mortais, e pior, fazem-no a cabo de várias mãos, unindo-se, veja só, aos inimigos desta mesma nação ?”

  Rapidamente aquele homem sério e calado, de olhos magros e astutos vê-se vazio de desculpas, e agoniado diante do escrutínio, inquirido faz-se covarde e escondido por detrás de um exército de mercenários ridículos, cujas armas são palavras falsas, sujas, e o som dos gritos de uma legião de demônios caídos, ele então treme.

  Assim este homem, outrora tão honrado, sem que mesmo admita a consequência de seus atos, foge e esconde-se lado-a-lado com Brutus, Judas e Cassius. Passa a ocupar no imaginário popular, o nono ciclo do inferno, reservado aos traidores — aqueles que se apossaram do coração de suas vítimas antes de apunhalá-las — onde suas almas jazem , como disse Dante, nas mandíbulas de Lúcifer tendo somente o fogo eterno a vela-las.

– Marcelo Jatobá de A.Jr.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s