A Experiência Humana e o Papel da Literatura.

Marcelo Jatobá Jr.Jun 4 · 3 min read

A Gentleman Reading in the Library, por Johann Hamza

O homem que vive diante do som e da furia modernos, não pode conceber a eternidade silenciosa evocada após a morte de seu corpo, pois não suporta a propria ideia do perder-se, quanto mais imaginaria a de uma vida posterior, ou de um Deus que o abarque quando tudo aquilo o que unitariamente chama de consciencia, esvai-se de seu corpo e descobrimos, ao que parece, que somos mais do que o tempo nos permitiu construir. Isso exige de qualquer um não somente a noção intelectual, mas também a meditação constante sobre a ideia de que existem não apenas os instantes que compõem o tempo (eternos em si mesmos), mas também um ponto unificador o qual, repousando desde a eternidade, iguala a todos os seus fragmentos sem qualquer reverência à detalhes passageiros, exceto áqueles que desde dentro do próprio tempo tiveram valor tão marcante que o poderam transcender e repousar para além de sua infinita duração, e são estes os atos de Amor e de Sacrificio.

Tal meditação, tão abstrata quanto natural, era/é constantemente evocada através das orações inidviduais (onde exploramos a profundidade infinita do Ser diante da Eternidade), leituras sagradas (onde observamos isso em tantas outras historias diante de nós), ou de qualquer serviço missal (onde concretizamos a união do ser com o Todo) feito diante dos olhos e ouvidos de todos aqueles que mesmo incapazes de compreender em minuncias os prelados intelectuais de tais atos, são capazes de intuir seu significado profundo, pois trata-se da propria evocação de tudo aquilo que nos une igualmente enquanto frutos temporais de um tempo eterno e filhos de um Deus cuja mão o sustenta.

Há, aliás, que se dizer que não são as meditações apenas, mas as ações que nos elevam à união ultima e eterna com Deus, pois o amor e o sacrificio jamais podem ser tão bem imprimidos por um filosofo, ou poeta com suas rebuscadas palavras, quanto o é no simples ato de amor praticado por um pobre que partilha o seu pouco com aquele tem ainda menos, ou do mortalmente ofendido que clama pelo perdão daqueles que o ofenderam. Sendo assim, toda obra intelectual é não muito mais que um meio – através de linhas incontáveis e diversas – para nos aproximarmos do caminho primodial de nossas almas. Devo dizer ainda que, a meu ver, o talento literario pode ser descrito como uma via concedida a nós pela graça do espirito santo, pela qual o homem é capaz de explorar-se e compreender-se para que em última instância expresse (se não em si ao menos em seu trabalho) a vontade divina — que é a ordem natural das coisas — , encravando-a de modo tão profundo na cultura de um tempo, que esta possa correr atraves de fluvios literários atemporais, carregando lições eternas porém discretas, as quais chegarão aos olhos e ouvidos de inumeras gerações futuras que poderão, portanto, rememorar a nossa vocação maior: a de enfrentando o mundo nos elevarmos através da imitação da Paixão e do Amor de Cristo Nosso Senhor, em todas as suas formas possiveis.

E quem duvidará que nas grandes biografias reais ou ficcionais que vão desde Abraão à São João da Cruz , ou de Dante ao Raskolnikov de Dostoyevski, nós no fundo enxergamos distintas expressões de uma mesma história: a profunda e épica trajetória de autodescobrimento e de autoconstrução de um indivíduo o qual por fim se apercebe (nao apenas intelectualmente, mas num reino mais profundo pertencente as impressões imperecíveis da alma) ser ele mesmo em sua essência um reflexo da eternidade Divina, produto de Seu amor e fruto imerecido de Seu sacrifício. Não é esta a fina linha que unifica a todos nós? Não é este o mais distante horizonte a ser singrado e o mais obscuro fosso a ser explorado pela aventura que chamamos de experiência humana? Pois bem, este, a meu ver, é o mais elevado papel alcançado pela literatura em nossa história.

Representação do céu na Divina Comedia de Dante Alighieri, visto aqui através da gravura de Gustave Doré.

— Marcelo J. de A. Jr

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