O Capitão e o CEO

Certo dia meditando sobre a felicidade, não no sentido em que muitas vezes tomamos de excitação fugaz que dá lugar ao vazio, mas sim como aquela paz interior e duradoura que nos permite encarar os dias de peito aberto e as noites com a mente tranquila, surgiu-me a seguinte pergunta: Por que um capitão singrando o atlântico em 1500 era mais feliz do que hoje mostra-se o CEO milionário no topo da cobertura de um prédio?

E está é a conclusão a qual cheguei:

Embora todos os confortos possiveis e imagináveis, desde os físicos até a simples possibilidade de comunicação a distancia, fossem outrora desconhecidos o capitão de 1500 (ou de qualquer centenário anterior ao nosso) vivia o seu presente e o seu espaço com profunda conformidade com estes. Ele guardava sim grandes expectativas e grandes angústia em sua visão do mundo tal qual as tem o ambicioso homem-moderno, afinal, um capitão não é um marinheiro comum cujas decisões não levam a vergonha ou a glória, a morte ou a vida longa de todos os homens ao seu redor, não, eu estou falando de um homem em cujo coração e mente tudo isso pesava, mas que ainda assim sentia que pairava sobre sua cabeça um céu onde um Deus era o responsável ultimo por sua sorte e isto era uma verdade tão consciente quanto o mar que via a sua frente. O capitão notava também ao seu redor a Natureza, assim como nós notamos, entretanto, em sua mente havia a noção de que esta não era uma amiga esqualida e distante, muito menos uma possível submissa a sua vontade, antes sim era vista como uma força por ser enfrentada, ainda que jamais domada, e isto irremediavelmente garantia ao homem o mítico papel de Sisifus: este que outrora temeroso, enfim torna-se conformado com sua terrível condenação, a de um trabalho continuo cujo significado verdadeiro, porém, é o fim da inermidade de uma vida vazia em nome da eterna gloria silenciosa da perseverança laboriosa.

Contraria a tudo isso, a mentalidade moderna leva-nos a alienação constantemente da vida, sugerindo-nos a pensar no prazer como o objetivo máximo de nosso trabalho, um local de descanso ao termino do dia, quanto ao termino da vida? Bem, “o fim esta muito distante, aliás, cada dia mais, ja viu os avanços da medicina?” escutamos falar algum resquício gnóstico dentro de nós.

O antigo capitão, por outro lado, buscava a gloria através do sacrifício. O sentido do primeiro caso, deste modo, reside nas conquistas materiais em vida (no tempo comum), a qual um dia será perdida e cuja fonte de alegria não será jamais reencontrada. O sentido do segundo, entretanto, reside exatamente na conquista somente alcançada através do doar-se e do perder-se, invariavelmente o destino de todos nós. Assim, o homem que não pode controlar inteiramente as condições que se desvelam em seu derredor – o que é uma descrição da vida até para o homem moderno – deve ao menos controlar sua resposta diante desta vida, e deve faze-lo derivando-a sempre das verdades eternas, as quis originam a civilização e a cultura onde habita. O coração de quem o faz reside na perene certeza de estar seguir o caminho correto, e ainda que a angústia lhe arrebate os sentidos, ela permanecerá subordinada aos objetivos últimos desta vida.

O homem cujos planos descansam sob a certeza da morte e são guiados pelo desejo de ser o seu melhor diante de uma consciência elevada que o abarca, provavelmente terá uma vida (ainda que esta conte com erros e desvios no caminho) em alinhamento com a vontade do Logos e, portanto, em sintonia com aquela pulsão profunda e constante que repousa em sua alma.

E Isso, tenho certeza, trazia a paz e a felicidade necessárias para a vida de labuta e dificuldades daquele capitão e de seus marinheiros.

  • Marcelo Jatobá de Araújo Júnior.

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