Olavo, o Brasil e o papel de uma cultura Unificada

A noite que emergiu desde as trincheiras da primeira guerra mundial no natal de 1914 tornou-se conhecida como “the christimas truce” ao unir alemães e ingleses (noutros casos alemães e franceses) em dias de armistício que foram declarados tão somente em razão do sentimento natalino o qual, mesmo em guerreiros de países de distintos, expressava-se através da onipresença da fé cristã ainda prevalente na Europa de então e que formava assim o imaginário reinante do homem Europeu. Tal acontecimento impressionante nos mostra a força unificadora do simbolismo cultural e religioso mesmo durante uma das mais sangrentas guerras da história, sendo assim capaz até mesmo de unificar soldados inimigos em um objetivo comum, naquele caso o de louvarem a obra de Deus no mundo e compartilharem a alegria natalina em uníssono tal como nos conclamam idealmente os ensinamentos da própria igreja histórica de Cristo.

Estes tempos infelizmente passaram, a cultura cristã unificadora da Europa esvaiu-se e hoje luta-se para que ela retorne não de modo nostálgico, mas para que aflore e sedimente-se nos corações como o princípio o fez de Jerusalem à Roma, e neste mesmo caminho seguimos nós, conservadores e cristãos, no Brasil.

“Um grupo historico: soldados britânicos e alemães fotografados juntos” dizia a manchete do jornal britânico The Daily Mirror

O que venho destacar por meio deste artigo é a lição advinda da “trégua natalina” de 1914 e que permanece em suas entrelinhas, um fenômeno o qual devemos sempre lembrar, e se possível cravar com ferro-em-brasa nas nossas consciências, o de que em momentos difíceis da história somente uma cultura que povoa vivamente o imaginário coletivo é capaz de unir diferentes pulsões de grupos distintos, somando-os contra um inimigo em comum (material ou abstrato) em nome de objetivos os quais anteriormente sequer notavam compartilhar. Tal advento, entretanto, só é possível de obter-se através do trabalho de intelectuais cuja capacidade demonstre-se grande ao ponto de transcender as questões “urgentes” da politica e das polemicas momentâneas, enxergando e transformando em expressão literária tanto os pontos de distinção quanto o eixo unificante pelo qual – ou contra o qual – lutam as tribos que formam uma nação, etnia, império ou religião. Seguindo esta noção devemos notar que a serviço do lado “positivo” da historia e filosofia ocidentais, em seus momentos de “Crisis”(na acepção clássica do termo), costuma-se despontar indivíduos singulares tais como Sócrates, Platão e Aristoteles na Grécia antiga, ou S. Paulo Apostolo, St. Agostinho e St. Thomas de Aquino já após o surgimento do cristianismo no tempo histórico. Cada um destes, em um momento e local específicos, mostraram-se capazes de produzir trabalhos que abarcariam ideias imensamente variadas, no caso dos 3 primeiros, por exemplo, absorvendo a todo o eruditismo antigo e, com a audácia de buscarem algo novo, erigir a todo um método filosófico e científico (e diversas teorias e observações baseadas nestes) além de estudos de modelos sociais e analises politicas brilhantes; no caso do segundo trio — os santos doutores — destacaram-se através de esforços monumentais de unificação intelectual, cuja origem decorria desde a literatura e filosofia pagãs (exceto St Thomas, que fez o caminho contrário) e abrangia a espiritualidade dos escritos evangélicos e do trabalho de toda a igreja guardadora destes, deste modo abarcando e transcendendo os problemas da articulação cultural da fé que surgiam em suas épocas, o que os levou a descobrirem novos leitos rochosos para a fomentação do cristianismo em diversas vertentes culturais, permitindo a construção de novas colunas de sustentação para tempos vindouros, colunas as quais manteriam erguido sobre si um teto que abarcou e abarca incontáveis visões e teorias dissonantes sobre as origens e o funcionamento da religião cristã e de sua manutenção pratica no dia-a-dia mundano. Tais homens grandiosos são raros e tem valor inquestionável, ainda assim seus trabalhos só encontraram duração na história graças ao acolhimento por um certo número de intelectuais de seu tempo e por grupos que, tendo continuidade histórica, guardaram ou reproduziram seus escritos e dentro do possível os aplicaram no decorrer dos séculos.

“st. Thomas de Aquino” de Benozzo Gozzoli retratado ao lado de Aristoteles (a nossa esquerda) Platão (a direita) e com o filosofo muçulmano Averroes abaixo.

Seguindo esta tendência, a reprodução e aplicação de trabalhos intelectuais no mundo moderno, enfaticamente quando visam o surgimento de efeitos num curto prazo, tornou-se tremendamente dependente de instituições oficialmente organizadas, ou da proteção contra estas, e somente o produto intelectual que conta com certo apoio civil, politico e/ou econômico pode encontrar a difusão necessária para não apenas fazer a mente do clero, realeza e elite política, mas para atingir em poucas décadas toda uma sociedade civil, construindo assim o horizonte imaginativo desta e ditando os rumos da história.

Por esta via – verdade seja dita —somente o que no Ocidente pode ser conhecido como a “intelectualidade negativa” tem encontrado tal respaldo no decorrer dos últimos séculos e tem tido sucesso em unificar correntes distintas de pensamentos, organizando-as sempre em movimentos históricos eficazes. Sobre isto, alguns recentes e fulminantes exemplos são os trabalhos de nomes como Karl Marx, Tito Buckhart, Jean Paul Sartre, Antonio Gramsci, Michel Foucault e Theodore Adorno, pois sem estes gênios literários para articularem as diferentes crenças, os objetivos distintos e as pulsões diversas (muitas vezes superficialmente opostas) dos variados movimentos anticristãos e antinacionalistas que iam (e vão ainda hoje) desde o negativismo da Escola de Frankfurt ao propositismo monolítico do Islamismo radical (negativo no contexto ocidental), jamais haveria um movimento unificado para ser chamado de Esquerda Mundial. A KGB, por exemplo, desde sua fundação compreendia bem esta necessidade de uma “super cultura” capaz de abarcar as subculturuas regionais e tribais, e de transpassar não apenas o espaço que as separa, mas o tempo através de gerações, pairando sempre acima dos problemas das políticas de gabinete e mantendo uma continuidade de ação tão dificilmente alcançada nos dias atuais quando nao conta com uma organização que abranja todos os planos da vida humana moderna, deste modo, estas organizações e grupos anti-ocidentais (que vão da KGB e do PC Chinês até a Irmandade Muçulmana e grupos esotéricos orientalistas) dispuseram-se a aplicar todo o apoio financeiro, politico e judiciário para seus “operários intelectuais” da causa .

Sartre e Foucault (acima) praticam um pouco de militância de rua; Gramsci, a esquerda abaixo, o grande teórico da “estratégia hegemonica” da esquerda; na imagem ao lado vemos M. Horkheimer e T. Adorno, as grandes mentes da escola de Frankfurt. Alguns dos principais nomes a definirem a destruição do que restou da cultura Ocidental no Século XX: primeiro se pensa, depois de faz.

Pois bem, agora transponhamos tudo isso para a nossa situação atual no Brasil, e devo ir direto ao ponto afirmando que sem Olavo de Carvalho – sem seu trabalho unificador e multifacetado – jamais haveria algo a ser chamado de “Direita” ou “movimento conservador” no Brasil, e mais, sem a atual manutenção e propagação deste trabalho esta mesma “Direita Conservadora” desaparecerá como num passe de magica em poucos anos, e a própria Esquerda, com sua típica inteligência estratégica já entendeu (a muito tempo aliás) o peso do trabalho do filosofo Brasileiro e, portanto, partindo deste insight e pondo em prática um plano contra suas consequências através da abrangente penetração que o movimento comunista/globalista tem em todas as camadas da vida civil e política brasileira, suas marionetes já se puseram a martelar o homem (e seu trabalho) de todos os modos possíveis, e uma vez que aperceberam-se intelectualmente inferiores, foi através do assassinato de reputações e da perseguição judicial franca que encontram o caminho de ação.

Aos que ainda não entenderam a importância desses acontecimentos vou dar uma noção mais imediata das consequências:

A vitória de nosso atual presidente no ano de 2018, bem como quaisquer esperanças de um Brasil melhor (esperanças as quais nenhum políticos jamais é gerador, mas tão somente um parcial operador) são produtos advindos quase que integralmente do trabalho de Olavo de Carvalho, de seus alunos ou ao menos de indivíduos influenciados pelos seus escritos (mesmo aqueles que o negam não fogem a isso), pois, se como disse Hugo von Hofmannsthal “nada há na politica de um país que não tenha estado antes em sua literatura”, devemos lembrar que foram as centenas de artigos e os diversos cursos e livros de Carvalho nos anos 90 e 2000 (desde “A revolução cultural” até “O Mínimo…” e da “hostoria essencial da filosofia” ao COF) que fomentaram este momento de “Crisis”de nossa história.

Acima alguns dos livros publicados por Olavo, além de seu acervo pessoal na Virginia, onde mora. O filosofo também conta com mais de 500 aulas em seu Curso Online de Filosofia, além de dezenas de cursos (anteriores e paralelos ao COF), ainda somam-se a sua produção mais algumas centenas de apostilas e material guardado ainda por ser publicado.

Ao lerem isso, alguns podem afirmar – orgulhosos de sua ignorância como só alguns espécimes Brasileiros são capazes de fazer – que o que escrevo não é verdade, pois “jamais leram uma linha do filosofo”, entretanto, estes nao entendem que a esfera de influência de um escritor vai infinitamente além das palavras que põe no papel, e no caso de Olavo estende-se desde uma miriade de alunos, leitores e influenciados diretos por suas palavras (escritas e faladas) ao simples “Novo mercado editorial Brasileiro” fundado basicamente com os autores citados por ele em seu antigo programa de radio “True Outspeak”. Portanto, se como disse August Comte “a vida dos vivos é ditada por filósofos mortos”, Olavo foi a exceção a esta regra e começou ainda em vida, e à revelia do apoio de empresários ou organizações políticas, a ditar os rumos de nossa história contemporânea. Seu trabalho foi o primeiro em décadas a elevar novamente para um plano publicamente debatível as visões divergentes e convergentes dos conservadores (cristãos ou não) e de desvelar o chamado “movimento revolucionário” desde as sombras do debate público para a luz das discursões diárias, e o fez tratando a todos os temas com a amplitude e o esquematismo necessários para possibilitar a ligação entre o intelectualismo intrínseco neles (geralmente fechado a grupos iniciados de eruditos, quase sempre ineficazes na vida pública ) com uma maneira simplificada de fazê-los compreensíveis, acertando em cheio a natureza da alma Brasileira e nesta ressoando com firmeza.

Sem este trabalho unificador de Olavo de Carvalho jamais haveria a possibilidade de algum apoio concreto e nacional à Jair Messias Bolsonaro, pois não haveriam as bases que permitiram a divulgação intelectual e por fim a aglutinação popular ao seu redor, não haveria a “chave imaginativa conectora” que ligou a imagem do político aos desejos dos brasileiros, mesmo os de classe média relativamente letrada (os quais no início eram aqueles que naturalmente mais o rejeitavam), deste modo, a manutenção de sua imagem como o “unificador politico da direita Brasileira” seria impossível, e se o leitor ainda não está convencido, explico isso com ainda mais especificidade:

Pode ser que Olavo não tenha sequer notado (o que obviamente não seria verdade dozer, pois ele sabe bem o que faz), mas as consequências de seus atos criaram muito mais que o presidente, pois para que Bolsonaro fosse visto como unificador do “Espirito de um Brasil Profundo” primeiro foi necessário dar vazão imaginativa ao que a expressão “Espirito de um Brasil Profundo” significa, e mais, era necessário fazer isto num pais cujo passado houvera sido apagado e trocado por arroubos de “nacionalismo geográfico”, portanto, foi diante do esforço de 3 décadas do filosofo-escritor – e mais recentemente assomando-se a ele o de seus alunos e leitores ávidos, estes mesmos em grande medida produtos de seu esforço de ensino – que o nosso sentimento nacionalista passou de uma estranheza cosmética baseada em arroubos carnavalescos, programas de auditório, Bossa Nova e Jogos de uma seleção de futebol (cada dia mais afastada do próprio país) para, ainda abrangendo isso, incluir de modo mais profundo saudações ao Hino e a bandeira Imperiais, além da restauração da nossa gloriosa história recontada em livros e documentários que abrangem desde uma cruzada para o descobrimento de um novo continente à esforços diplomáticos centrais nos últimos dois séculos, e de participações em grandes guerras a até mesmo a releitura do trabalho de alguns dos grandes intelectuais e literatos de todos os tempos como Machado de Assis, Otto Maria Carppeux, Vincente Ferreira Silva, e claro, Mario Ferreira dos Santos. É pela releitura de tudo isso que vem surgindo a recriação de um “orgulho em ser Brasileiro” finalmente fundamentado em algo mais sólido que a imagem de micos-leões dourados, praias arejadas, bundas de mulatas e florestas verdejantes. Só a partir daí qualquer politico de “direita” pôde ser levado a sério no Brasil, e só então Bolsonaro (ou outros que pularam em sua esteira) pôde passar de cidadão que gerava simpatia em um certo público, para “Messias” dos anseios desta nação, tais como a “luta contra a ideologia de gênero”, “contra o aborto”, “contra o movimento revolucionário”, “em favor do cristianismo” e do chamado “Brasil Profundo” , anseios os quais, convenhamos, a 10 ou 15 anos atrás ninguém sequer saberia nomear ainda que sentisse as garras do secularismo e do comunismo apertando-lhe a garganta pouco-a-pouco.

“Lobo Solitário”, “sobrevivente de um antigo Brasil”, “Guru da Virginia” , “Defensor da Civilização Humana” (nas palavras de Wolfgang Smith), “Mestre de todos nós”(nas palavras de Yves Gandra Martins) são incontáveis as definições, mas todos – detratores e admiradores – concordam numa coisa: trata-se de um indivíduo único em nossa história.

Vou repetir simplificadamente apenas pelo bem da fixação e, quem sabe, da ação:

Sem a união ao redor do trabalho de Olavo de Carvalho (e de parte de seus alunos) não existe direita culturalmente unificada no Brasil e, por consequência, não existe direita politicamente eficaz, logo não há apoio eficiente seja ao projeto de Bolsonaro, ou de qualquer outro movimento pretensamente cristão, conservador e ocidentalista em nossa terra e caso, à revelia disto tudo que escrevo, sigamos como no passado em um caminho de auto-negação e foco no que há de mais vil e efêmero em nossa cultura, o Brasil inevitavelmente se desvanecerá nos ventos das mudanças históricas do mesmo modo que o reino de Ozymandias, descrito por Percy Shelley em seu poema homônimo, o fez, sem que, no entanto, deixemos sequer uma glorioso e areada estátua como sinônimo de glorias passadas. Sem este esforço intelectual, literário, civil, politico e jurídico (dentre outras camadas a serem alcançadas) o Brasil na historia humana não passará de uma pequena tribo de índios que se foram sem deixar marcas para serem lembrados, e isto é tão triste, e francamente ridículo, quanto se pode conceber: toda uma aventura de 500 séculos, envolvendo várias centenas de milhões de vidas humanas, jogada numa lata de lixo por conta de preguiça, inveja e permissividade moral, que Deus nos livre deste fim.

  • Marcelo Jatobá de Araújo Júnior

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