O viandante

O vento forte golpeava as arvores e destes açoites gelados vinham um dos pouco sons daquela noite solitária. Os cachorros latiam em meio a escuridão entrecortada pelos postes.

Um homem andava à rua em seus andrajos sujos e escuros. Enrolado numa manta e de cabeça baixa ele seguia com uma expressão impassível.

Seus olhos tristes e vazios não miravam nada mais a sua frente, pois apesar de sua barriga, também vazia, já houvera desistido de procurar nas lixeiras, ainda vazias, algum alimento que o pudesse preencher, e qualquer lembrança de casa também já era vazia e não mais o podia aquecer.

Seus ossos tremiam, sua respiração ofegava um pouco, seus joelhos doiam e, sem qualquer razão que pudesse nomear, aquele homem continuava.

Uma criança o olhava por um grande janela da sala de uma casa, revelando uma luz amarela ao fundo e tantas pequenas coloridas mais. Parecia um lar aquecido com amor e pessoas queridas

Aquele homem, desde seus trapos, olhou a criança e a criança a ele, seus olhares se entrecruzaram, e o velho viu-se ali, 4 décadas atrás. Seu coração apertou, algumas gotas escorreram-lhe pelos olhos.

O garoto ainda olhava-o interrogativamente, com grandes olhos castanhos e com um dedo encostado ao vidro, quando o velho virou o rosto e continuou a andar. Suas lagrimas brotavam já com volume, chorando num silêncio amargo por entre os trapos, e não o fazia somente por si, nem por aquilo, mas por tudo, por todos os anos, por todos os dias, por todas as horas e acima de tudo por todas as vidas possíveis que havia perdido de viver e de se alegrar.

A porta da casa, a apenas um pequeno jardim de distância da calçada, abriu-se.

“Olá!” acenou uma moça ruiva, bela e de roupas quentes, “O senhor, está com fome?”.

O homem não disse palavra.

Ela deu um passo à frente com um tigela em suas mãos, mas em seu braço delicadamente pôs-se uma mão de homem, uma mão grande de um braço firme e forte que a segurou. O marido surgiu na porta, falou algo para a mulher e tomou-lhe o prato de comida das mãos. Ela entrou e ele então dirigiu-se ao velho.

Apesar de um pouco amedrontado, já que a experiencia dizia-lhe bem que moradores facilmente se irritavam com sua figura rondando suas casas, o viandante permaneceu na calçada todo esse tempo, e enxugando as lagrimas que começavam a secar ao frio, permaneceu ainda firme quando o homem aproximou-se pisando sobre a esparsa grama do jardim frontal.

“olá meu velho! Aqui tem algo pra você”, disse estendendo-lhe um grande tigela com comidas que, para além do purê de batas e do belo bife de carne, ele sequer saberia nomear.

A criança surgiu por detrás daquele homem grande.

“Oi filho”, disse ele pondo-o no braço. A esposa apareceu a porta com algumas roupas numa sacola.

“tem um abrigo a duas quadras daqui”, anunciou ela aproximando-se e estendendo-lhe a bolsa. Ela era bonita e jovial.

O velho, mudo, pegou a bolsa delicadamente e então encarou de olhos bem abertos aquela família que o encarava de volta em silêncio.

“Quer que eu te dê uma carona?” disse o homem incomodado com o vento que começava a enregelar sua criança.

“não” respondeu o velho, “não precisa”. Sua voz era quase um sussurro e parecia a de alguém que quase nunca a usava.

“Eu posso te levar amigo…” Insistiu o homem.

“Não”, interrompeu o velho, e então sorriu com os poucos dentes que lhe sobravam na boca enquanto seus olhos marejavam com o vento, “Obrigado senhor!”, disse, os encarou mais um pouco e prosseguiu sua caminhada.

A família, esquecendo-se do frio, continuou do lado de fora observando-o por mais alguns passos, suas costas encurvadas, seus andrajos sujos afastando-se cada vez mais. Por fim, voltaram-se para a casa, ainda que a mulher tenha virado a cabeça para mirá-lo por mais duas vezes e o homem, ainda que resistindo, o tenha olhado de soslaio com um rosto bastante comprazido e de testa enrugada, que desfez ao entrar no lar. A criança não tirou seus olhos castanhos daquela figura em nenhum momento, e não tiraria aquela imagem jamais de sua memória.

Algumas dezenas de metros depois, o viandante sentou-se num banco, rodeado por cachorros. Fez sua prece, então comeu e compartilhou a refeição com uma expressão humilde, sorridente e de profunda dignidade.

O vento continuava a soprar.

  • – Marcelo Jatobá de Araújo Jr.

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