Fogueira (um pequeno conto)

  O velho e o garoto estavam diante de uma fogueira e tinham o silêncio de todo o sertão Brasileiro ao seu redor. O velho mexia no fogo uma carne de bode, enquanto colocava em um recipiente metálico a água que esquentaria para o café. O garoto, que tinha seus 13 anos, olhava a escuridão em volta. Era a época de acampamentos como todos os anos faziam desde os seus 10 e isso sempre o deixara imensamente feliz: as barracas, o calor do dia e o frio da noite, a presença do avô (um grande leitor e ainda melhor contador de historias), os animais que encontravam no caminho… Tudo o ajudava a desligar-se da vida comum sem que ele mesmo, até então, soubesse nomear aquilo que o fazia sentir um calor no peito quando ansiava por tais aventuras e encontrava-se enfadado numa cadeira escolar durante os meses letivos. Mas desde os últimos acontecimentos que vira e ouvira falar na TV, com o fervor de um garoto inteligente de 13 anos que sempre julga todo acontecimento como algo grandioso, ele não conseguia descansar.

— O que é? O que te incomoda? — perguntou o velho franzindo os profundos vincos em sua testa, enquanto não parava de mover seus dedos calejados.

— Nada vô, é que isso tudo que eu escuto, sabe… quando a gente tava na cidade, sobre o Brasil ter a bandeira vermelha e tudo, o Presidente cair, sei la… — e balançava a cabeça com uma careta de preocupação como que para clarear seus pensamentos.

— Sei, o que tem? — perguntou seriamente o velho, pois embora achasse graça na preocupação deste garoto que até ontem brincava com carrinhos, ele não queria magoa-lo com risos.

— Pois é vô, o que o senhor acha que vai acontecer? Acha que o presidente age? que o exercito age? que tudo vai cair? que a gente ta entregue?

O velho respirou fundo:

— Sabe filho… — e demorou um pouco, escolhendo as palavras enquanto atiçava as brasas no fogo com um espeto — se você vai mexer em um ninho de ratos, primeiro eles saem correndo, mas se você seguir na caçada e coloca-los contra um canto encostados na parede — e olhou nos olhos do garoto, olhos que continham toda a curiosidade possivel numa alma jovem impressionada — eles vão guinchar com as bocas abertas e dentes a mostra, guinchos horrorosos. Aí eles vão atacar… O que você faz então ? Se correr eles tomam a casa, lutar é o único meio de esmaga-los, certo? Isso não vai ser bonito, nem um pouco bonito aliás… E você pode levar uma ou outra mordida no processo, mas é o único meio de tira-los de lá. Entende?

O garoto tinha o olhar cristalizado . O Velho respirou fundo e mirou a escuridão — eu não sei o que vai acontecer filho, mas eu sei o que deveria… e isso me basta — apontando para cima emendou — o Resto é com Ele, se tivermos de fazer algo e ouvirmos o chamado de quem precisa, nós nos juntamos nessa luta, entendeu?

E então calou-se. O Garoto sorriu com os olhos, o Velho sorriu de volta e voltou ao trabalho. Nada falaram por mais alguns minutos, não era necessário. O profundo silêncio mais uma vez os abraçou no sertão selvagem, rompido somente pelo crepitar das brasas e o regorjeio de alguma ave ao longe. O Garoto, entretanto, tinha olhos e ouvidos absortos numa fantasia remota. Assistia agora em sua própria mente a protestos e lutas armadas, sempre com seu velho ao lado. Num devaneio juvenil subtamente estava na fazenda de armas em punho, junto de todos os empregados e amigos, resistindo bravamente contra as forças inimigas. Um autêntico e bravo bastião da resistência…

Como, de repente, tudo se tornara tão divertido outra vez…

— Marcelo J. de A. Jr.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s